“Portanto deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne. Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mateus 19:5-6)
O tema do divórcio sempre gerou grandes debates — tanto no meio religioso
quanto na sociedade em geral. Quando os fariseus questionaram Jesus sobre esse
assunto, em Mateus 19, a intenção deles não era aprender, mas armar uma cilada.
Havia duas escolas rabínicas que interpretavam Deuteronômio 24 de formas bem
diferentes: uma permitia o divórcio por qualquer motivo banal, e a outra,
apenas em casos mais sérios. Jesus responde voltando ao princípio da criação,
mostrando que o casamento é uma aliança sagrada — não um contrato descartável.
Jesus não incentiva o divórcio — Ele
restringe e protege os vulneráveis
No contexto de Jesus, o homem podia repudiar a mulher por qualquer
motivo. Isso deixava muitas delas desamparadas e marginalizadas. Quando Cristo
fala em “não separe o homem o que Deus uniu”, Ele levanta o padrão moral,
resgata a dignidade do casamento e protege quem sofria injustiça.
A chamada “cláusula de exceção” (porneía) — traduzida muitas vezes como
“infidelidade conjugal” — é o único caso que Jesus menciona para o divórcio.
Vários estudiosos, como D. A. Carson e John Stott, destacam que porneía pode
abranger não só adultério literal, mas também práticas sexuais ilícitas e
quebra grave da aliança conjugal.
Paulo e a questão do abandono em 1
Coríntios 7
O apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, reafirma o ideal do
casamento, mas trata de situações reais e dolorosas: casamentos onde um dos
cônjuges não é cristão e decide abandonar a relação.
“Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica
sujeito a servidão nem o irmão nem a irmã; mas Deus chamou-nos à paz.” (1
Coríntios 7:15)
Paulo deixa claro que a fé não deve escravizar ninguém a um relacionamento
abusivo ou sem paz. Quando há abandono, o crente “não está escravizado”.
Abuso psicológico e agressão física
entram nesse princípio?
Embora Jesus e Paulo não tenham usado diretamente os termos “abuso
físico” ou “psicológico”, o princípio do texto é claro: Deus não chama ninguém
para viver debaixo de opressão, medo ou violência.
- Agressão física ou sexual quebra os votos matrimoniais e põe a vida em risco.
- Abuso psicológico e emocional prolongado fere a dignidade e o propósito da
aliança.
- Negligência grave também era considerada, na tradição judaica, motivo
legítimo para dissolução da união.
Estudiosos como David Instone-Brewer explicam que, no contexto bíblico,
abandono, negligência e abuso eram reconhecidos como quebra da aliança, o que
se encaixa no princípio paulino: “não está escravizado”.
Teólogos e interpretações —
convergências e divergências
• D. A. Carson — reconhece que porneía tem sentido mais amplo que apenas
adultério.
• John Stott — afirma que o divórcio é uma concessão à dureza do coração, nunca
um ideal.
• David Instone-Brewer — destaca que negligência e abuso configuram quebra da
aliança.
• Setores mais conservadores — admitem separação para segurança, mas veem o
divórcio apenas em casos de adultério ou abandono literal.
Embora haja diferenças nas interpretações, há consenso em proteger a vida, a
dignidade e a integridade dos envolvidos.
Diretrizes pastorais práticas
1. Proteja a vida em primeiro lugar. Em casos de violência, a prioridade
é garantir segurança — inclusive com medidas legais se necessário.
2. Evite culpar a vítima. A fé não pode ser usada como arma para prender alguém
em um ciclo de abuso.
3. Aconselhamento pastoral e clínico. Cada caso deve ser tratado com sabedoria,
oração e suporte adequado.
4. Reconciliação só com frutos reais de arrependimento. Perdão não é voltar
para o perigo.
5. Lembre-se: Deus chamou para a paz, não para a escravidão.
Conclusão — Verdade, graça e proteção
Jesus não banalizou o divórcio; Ele resgatou a santidade do casamento e
protegeu os mais frágeis.
Paulo não criou brechas; ele trouxe princípios de liberdade e paz para
situações difíceis.
E nós, como igreja, líderes ou irmãos em Cristo, não podemos fechar os olhos
diante de realidades de abuso e opressão. Deus ama a instituição do casamento —
mas ama ainda mais as pessoas que estão dentro dela.
“Deus nos chamou para a paz.” (1 Coríntios 7:15)
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Referências recomendadas
•
D. A. Carson, Expositor’s Bible Commentary – comentário sobre Mateus 19• John Stott, O Cristão Contemporâneo e os Temas Controversos
Por Pastor Luciano Gomes

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