Teólogo, colunista do Portal Veja Aqui Agora e responsável pelo blog Crescimento Espiritual.
Quero conversar com você hoje sobre um assunto que está no coração de tudo o que cremos e praticamos. Muitas pessoas ainda têm dúvidas, e até conceitos errados, sobre o que realmente é a Igreja de Cristo, qual a sua função aqui na terra e como devemos, de fato, viver e anunciar o Evangelho que recebemos.
Quando eu falo em Igreja, quero logo deixar claro o que está no meu entendimento e na minha prática: não estou me referindo a prédios, a instituições ou a uma denominação específica — seja ela evangélica, católica ou qualquer outra. Para mim, e conforme a Bíblia nos ensina, a Igreja de Cristo é um organismo vivo, formado por pessoas. É o conjunto daqueles que seguem a Jesus, que O têm como Senhor e Salvador, e que buscam fazer a Sua vontade independente de rótulos ou divisões.
E para tudo o que eu vou compartilhar aqui, tenho uma base inabalável: a Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus, que para mim é regra de fé e prática, e é incontestável. Podemos até, em alguns momentos, ter interpretações diferentes ou debater questões profundas, mas no final das contas, Deus tem a última palavra, e é por ela que devemos nos guiar.
A NOSSA MISSÃO: PREGAR, ENSINAR E VIVER A VERDADE
Jesus, quando esteve aqui na terra há mais de dois mil anos, deixou muito clara a missão daqueles que O seguem. Ele disse: “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado”.
Portanto, a tarefa principal da Igreja é essa: pregar o Evangelho e ensinar toda a doutrina, toda a ética, toda a moral, todos os princípios e valores que estão registrados na Palavra de Deus. Ensinar os bons costumes, o amor ao próximo, a justiça e tudo o que reflete o caráter de Deus.
Mas ao ensinar, precisamos ter uma sabedoria que muitas vezes está faltando por aí: a de separar o que é prática do que é a pessoa. A Bíblia mostra claramente que existem condutas, escolhas e práticas que não estão de acordo com o que Deus estabeleceu. E sobre isso, a Palavra é firme. Mas é fundamental entender: Deus condena a prática, mas Ele nunca condena a pessoa que a pratica. Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.
E aqui entra um princípio maravilhoso que Ele mesmo criou: o livre arbítrio. Deus deu ao ser humano a capacidade de escolher o caminho que quer seguir. Ele não obriga ninguém a segui-Lo, Ele convida, Ele orienta, Ele ama, mas Ele respeita a decisão de cada um. Isso significa que, como Igreja, também devemos agir assim: ter clareza sobre o que a Bíblia ensina, manter a nossa fé e os nossos princípios, mas respeitar profundamente o ser humano, a sua dignidade e a sua escolha. Não cabe a nós julgar, excluir ou maltratar quem pensa ou vive diferente, mas sim amar, acolher e apontar o caminho da verdade com carinho.
JESUS CRISTO: O MAIOR EXEMPLO DE INCLUSÃO E AÇÃO SOCIAL
Se queremos saber como deve agir a Igreja, basta olhar para o Mestre. Jesus foi, sem dúvida, uma das pessoas que mais praticou ação social e inclusão na história da humanidade. E, curiosamente, foi exatamente por isso que Ele mais recebeu críticas e condenações dos líderes religiosos e mestres da Lei da época.
Sabe por quê? Porque Jesus andava, comia e convivia com quem a sociedade e a religião de então consideravam “impuros”, “perigosos” ou “pecadores”. Ele estava à mesa com publicanos — que eram cobradores de impostos, na maioria das vezes desonestos —, com prostitutas, com doentes, com leprosos, com os excluídos e esquecidos de todos.
Quando questionado sobre isso, Ele deu uma resposta que deveria ser o lema de toda a Igreja: “Não necessitam de médico os que estão sãos, mas sim os que estão doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento”.
Isso deixa muito claro para nós: a inclusão social deve ser a marca registrada da Igreja de Cristo. Não podemos nos comportar como os que julgavam Jesus, fechados em si mesmos e longe de quem precisa de ajuda e de amor. Temos que ir ao encontro, como Ele foi.
FÉ SEM OBRAS É MORTA — A GRANDE VERDADE DE TIAGO
Há um trecho da Bíblia que eu sempre gosto de citar, porque ele liga tudo o que falamos sobre fé, prática e amor ao próximo. Ele está na Carta de Tiago — e Tiago, como sabemos, era irmão de Jesus, e um dos grandes líderes da Igreja primitiva. Ele escreveu uma verdade que não podemos esquecer: “A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”.
Eu explico isso da forma mais simples possível: como posso dizer que eu tenho fé em Deus, que eu O amo e que eu obedeço à Sua Palavra, se na minha vida prática isso não se reflete em nada? Se eu não ajudo, não acolho, não faço o bem?
Mas atenção: não vamos confundir as coisas. As obras não salvam ninguém. A salvação é um dom gratuito de Deus, como diz o apóstolo Paulo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie”.
Então, qual é a relação entre fé e obras? É simples: a fé é o que nos salva, mas as obras são a prova viva de que essa fé realmente existe. Se a fé é verdadeira, ela não fica parada, ela produz frutos, ela se move, ela age em favor do outro.
E eu gosto de usar um exemplo muito real, que faz parte do meu dia a dia e do meu ministério, para explicar isso melhor.
Muitas vezes, chegamos a uma casa, a um lar, com a intenção de pregar o Evangelho e ensinar a Palavra de Deus. Mas ao entrarmos, vemos uma dura realidade: o pai desempregado, a mãe sem trabalho, os filhos sem condições de estudar, pessoas doentes, contas de luz e água atrasadas, dívidas acumuladas, e o pior de tudo: a despensa vazia, a geladeira vazia, falta de comida na mesa.
Diante dessa situação, eu pergunto a você: faz sentido eu abrir a Bíblia, começar a ensinar verdades profundas, falar sobre o céu, sobre a salvação e sobre promessas de Deus, enquanto aquela família está passando fome, sem dignidade, sofrendo necessidades básicas?
Para mim, a resposta está na própria Bíblia e no exemplo de Jesus: não faz sentido, não é correto e não é bíblico.
Eu entendo e pratico assim: primeiro eu cuido do social, primeiro eu devolvo a dignidade àquela família. Levo o alimento, ajudo a pagar a conta, consigo o remédio, ofereço o suporte necessário para que eles tenham o que comer e o que vestir. Quando eu faço isso, eu não estou apenas dando comida ou ajuda material: eu estou sendo as mãos de Deus na vida daquelas pessoas, estou mostrando o amor De forma visível e real.
E só depois, quando a barriga está saciada, quando a pessoa se sente acolhida, amada e respeitada, quando a dignidade está restaurada — aí sim, eu sento com eles, abro a Palavra e faço o evangelismo, ensino as doutrinas, falo de salvação. Porque agora, sim, o coração está aberto para receber a mensagem, pois eles já viram a mensagem acontecendo na prática através de nós.
CONCLUSÃO
Ser Igreja de Cristo, portanto, é muito mais do que frequentar um templo ou saber versículos de cor. É ter a Bíblia como nossa regra, crer na salvação pela graça, entender e respeitar o livre arbítrio e as escolhas de cada um, sem nunca deixar de apontar a verdade.
Mas, acima de tudo, é seguir o exemplo do Mestre: é ser inclusivo, é fazer ação social, é entender que fé sem obras é morta, e que o amor que não se torna prática não é amor de verdade.
A nossa missão é pregar o Evangelho que salva a alma, mas também é cuidar da vida aqui na terra, suprindo necessidades, levando dignidade e mostrando, com atos e palavras, que o Deus que servimos é um Deus de amor, de justiça e de cuidado para com todos os seus filhos.
Que possamos ser, de fato, a Igreja viva, atuante e amorosa que Jesus deixou aqui, pronta para servir e para amar, sempre!


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