Bahia: pobreza, dependência e poder — por que o mesmo projeto político permanece tão forte?

Por Luciano Gomes

Uma análise sobre pobreza, emprego público, programas sociais, comportamento eleitoral, violência, educação e a permanência de estruturas políticas na Bahia.


A eleição de 2026 voltou a colocar diante dos baianos uma pergunta que merece ser enfrentada sem paixão partidária: por que um mesmo campo político permanece tão forte eleitoralmente na Bahia, apesar de o estado continuar convivendo com graves problemas de violência, emprego, informalidade, educação e dependência econômica?

Não pretendo aqui desrespeitar o eleitor nordestino nem afirmar que milhões de pessoas não sabem votar. Muito pelo contrário. O que proponho é investigar uma aparente contradição política e social.

Na eleição presidencial de 2026, Lula voltou a demonstrar enorme força no Nordeste. Na Bahia, recebeu cerca de 66% dos votos válidos no primeiro turno. Seu domínio eleitoral atravessou praticamente todo o território baiano.

Isso acontece depois de aproximadamente duas décadas de continuidade petista no governo estadual, iniciada com Jaques Wagner em 2007, seguida por Rui Costa e Jerônimo Rodrigues.

Depois de tanto tempo, portanto, é legítimo perguntar: qual é o resultado dessa continuidade na vida concreta da população?

Uma Bahia economicamente dependente

Um dos dados mais preocupantes aparece quando observamos a capacidade econômica dos municípios.

O Índice Firjan de Gestão Fiscal mostrou que, entre 369 municípios baianos analisados, 329 — 89,2% — estavam em situação difícil ou crítica no indicador de autonomia. Em 156 municípios, a nota de autonomia foi zero.

Isso significa que existe um número expressivo de cidades com baixíssima capacidade de produzir receitas próprias suficientes para sustentar sua estrutura.

Essa realidade ajuda a explicar algo que qualquer pessoa que conhece o interior da Bahia já percebeu: em muitos municípios pequenos, a prefeitura não representa apenas o poder político. Ela é também um dos maiores centros econômicos da cidade.

São contratos temporários, cargos comissionados, terceirizações, fornecedores, serviços, empregos e inúmeras famílias direta ou indiretamente relacionadas à administração pública.

Quando a iniciativa privada é pequena e existem poucas alternativas de emprego, quem controla a máquina pública passa a exercer enorme influência econômica na comunidade.

Isso não significa que todo servidor público seja coagido a votar em determinado candidato. Seria irresponsável fazer essa generalização.

Até que ponto uma pessoa é politicamente livre quando acredita que sua sobrevivência econômica ou seu contrato pode depender do grupo que está no poder?

Quando o emprego público entra na política

Essa preocupação não existe apenas no imaginário popular.

Em 2026, o Ministério Público Eleitoral atuou em um caso no município baiano de Érico Cardoso envolvendo suspeita de pressão política sobre servidores municipais.

Segundo o Ministério Público, houve manifestações atribuídas ao prefeito envolvendo servidores e apoio político, inclusive referências à possibilidade de demissão daqueles que não estivessem no grupo político da gestão.

É importante esclarecer: denúncia ou investigação não significa condenação definitiva.

Mas o episódio demonstra que a utilização do vínculo funcional como possível instrumento de pressão eleitoral não é simplesmente uma história inventada pelo eleitor.

A legislação eleitoral brasileira protege a liberdade do voto. Utilizar autoridade, emprego ou função pública para constranger a escolha política de alguém pode configurar ilícito eleitoral.

O voto pertence ao cidadão.
Emprego público não pertence ao prefeito.
Programa social não pertence ao presidente.
Cargo público não pertence ao partido.

Ninguém deveria sentir medo de perder o sustento da família por causa de sua escolha na urna.

O peso do Estado no emprego

Outro dado ajuda a compreender essa estrutura.

Informações oficiais referentes a 2024 apontaram aproximadamente 2,77 milhões de vínculos formais de trabalho na Bahia.

A Administração Pública respondia por cerca de 675 mil vínculos.

Isso mostra a dimensão que o Estado possui dentro do mercado de trabalho baiano.

É preciso fazer novamente uma distinção fundamental: emprego público não é clientelismo.

Professores, policiais, profissionais da saúde, servidores administrativos e milhares de outros trabalhadores prestam serviços essenciais à sociedade.

O problema começa quando contratos precários, cargos temporários ou nomeações políticas são transformados em instrumentos de fidelidade eleitoral.

Bolsa Família e comportamento eleitoral

Chegamos então a um assunto que provoca enorme discussão: o Bolsa Família.

Em novembro de 2025, a Bahia possuía aproximadamente 2,31 milhões de famílias beneficiárias, abrangendo cerca de 5,65 milhões de pessoas.

Isso correspondia a aproximadamente 38,8% da população baiana.

É um número gigantesco.

Mas precisamos ser responsáveis: Bolsa Família não é automaticamente compra de votos.

O Estado tem obrigação de combater a fome e a miséria. Uma família que não possui recursos para alimentação precisa ser assistida.

A pergunta correta é outra:

Programas de transferência de renda também produzem efeitos eleitorais?

Pesquisas acadêmicas realizadas no Brasil já encontraram evidências de que o Bolsa Família produziu retorno eleitoral favorável a Lula em determinadas eleições, particularmente entre populações economicamente vulneráveis.

Estudos sobre a eleição presidencial de 2006 identificaram influência do programa sobre a votação de Lula, inclusive com efeito mais significativo entre municípios pobres.

Uma pesquisa especificamente relacionada à Bahia também encontrou efeito causal do Bolsa Família sobre a votação presidencial petista naquele contexto.

Em levantamento divulgado após o primeiro turno de 2026, Lula alcançou aproximadamente 68,7% dos votos nos municípios brasileiros onde beneficiários do Bolsa Família correspondiam a mais da metade da população.

Existe, portanto, uma forte associação.

Mas associação não significa automaticamente causalidade.

Nem todo beneficiário vota em Lula. Aliás, a votação de Lula nesse conjunto de municípios caiu em comparação com 2022.

Portanto, seria errado afirmar que quem recebe Bolsa Família necessariamente vota no PT.

O problema não é ajudar o pobre

Precisamos fazer uma distinção que considero fundamental.

O problema não é o Estado ajudar uma pessoa pobre.

O problema seria transformar a pobreza numa condição permanente de dependência política.

Uma política social deveria possuir dois objetivos: proteger a família que necessita de ajuda hoje e criar condições para que ela conquiste autonomia amanhã.

Isso exige educação de qualidade, capacitação profissional, empreendedorismo, indústria, agricultura, comércio, infraestrutura e geração de empregos.

O sucesso de um programa social não deveria ser medido apenas pela quantidade de pessoas que entram nele. Também deveríamos perguntar quantas famílias conseguiram melhorar de vida a ponto de não precisar mais dele.

Uma política social que protege é necessária. Uma política econômica que emancipa é indispensável.

Desemprego, informalidade e renda

Os indicadores trabalhistas ajudam a explicar a vulnerabilidade baiana.

Em 2025, a Bahia apresentou taxa anual de desemprego de aproximadamente 8,7%, subutilização da força de trabalho de 26,8% e informalidade de aproximadamente 52,8%.

São números elevados.

Quando mais da metade dos trabalhadores se encontra na informalidade e o mercado privado oferece poucas oportunidades em diversas regiões, a prefeitura, o Estado e os programas governamentais naturalmente ganham um peso muito maior na vida das famílias.

Isso não prova voto de cabresto.

Mas cria um ambiente no qual dependência econômica e poder político podem se aproximar perigosamente.

Educação: uma dívida que continua

Outro indicador que merece atenção é o analfabetismo.

Dados da PNAD Contínua referentes a 2024 apontaram aproximadamente 10,8% de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais na Bahia, enquanto a média brasileira estava em torno de 5,3%.

Não seria intelectualmente correto responsabilizar exclusivamente um governo atual por todo o analfabetismo adulto.

Esse problema atravessa gerações e possui raízes históricas profundas.

Entretanto, depois de tantos anos de continuidade administrativa, é perfeitamente legítimo perguntar:

Por que a distância em relação aos estados brasileiros com melhores indicadores educacionais ainda permanece tão grande?

E a violência?

Talvez aqui esteja uma das maiores contradições.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, a Bahia apresentou taxa de 40,6 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, uma das maiores do país.

E entre as dez cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes que apresentaram as maiores taxas de mortes violentas intencionais naquele levantamento, cinco estavam na Bahia: Jequié, Juazeiro, Camaçari, Simões Filho e Feira de Santana.

É evidente que houve investimentos em segurança.

Foram realizadas operações, contratação de efetivos, investimentos tecnológicos, ações de inteligência e integração das forças policiais.

Portanto, seria falso afirmar que absolutamente nada foi feito.

A pergunta crítica é outra:

Por que, apesar de tantas ações e depois de tantos anos de continuidade política, a Bahia continua apresentando indicadores tão graves de violência?

Um governo deve ser avaliado não apenas pelo dinheiro que anuncia ter investido, mas também pelos resultados produzidos.

Lula, condenações e o debate sobre corrupção

Também não podemos discutir política brasileira ignorando a Operação Lava Jato.

Lula foi condenado criminalmente, e algumas dessas condenações chegaram a ser confirmadas por instâncias superiores.

Isso faz parte da história brasileira.

Mas existe outra parte da história que também precisa ser mencionada.

Posteriormente, essas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, que decidiu sobre a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para aqueles processos. No caso do triplex, o STF também reconheceu a suspeição do então juiz Sergio Moro.

Portanto, atualmente não é juridicamente correto dizer que Lula permanece condenado nesses processos.

Isso não impede ninguém de realizar julgamento político ou moral sobre Lula, o PT ou os escândalos ocorridos durante governos petistas.

Mas uma análise séria precisa apresentar a história completa.

PT, PCC e o “diálogo cabuloso”

Outro episódio constantemente lembrado é uma interceptação policial na qual um integrante do PCC mencionou que a organização possuía um suposto “diálogo cabuloso” com o PT.

A fala existiu e foi divulgada pela imprensa a partir de investigação policial.

Isso merece conhecimento público e investigação.

Entretanto, a declaração de um integrante de organização criminosa não pode, sozinha, ser apresentada como prova judicial definitiva de que existiu uma parceria institucional entre o PT e o PCC.

Quem deseja combater corrupção e crime organizado precisa exigir provas, inclusive quando a acusação favorece sua própria posição política.

Caso contrário, substituímos investigação por propaganda.

O Nordeste é de esquerda ou é lulista?

Talvez essa seja outra questão que precise ser revista.

Os resultados eleitorais indicam que o Nordeste não necessariamente possui uma identidade ideológica de esquerda tão uniforme quanto parece.

Muitos eleitores votam em vereadores, prefeitos, deputados e senadores de centro ou até de direita e, quando chega a eleição presidencial, votam em Lula.

Isso sugere um fenômeno diferente: o lulismo pode ser muito mais forte que o próprio petismo.

Lula construiu durante décadas uma identificação pessoal com parcelas significativas da população nordestina.

Para milhões de pessoas, ele não representa apenas um partido. Representa determinada memória de ascensão social, aumento de consumo, políticas sociais e reconhecimento político de uma população que historicamente se sentiu esquecida.

Quem deseja compreender o voto nordestino precisa compreender essa memória.

A mente humana e o voto

Existe ainda um aspecto psicológico.

O eleitor não entra na cabine de votação como um juiz examinando milhares de páginas de um processo.

Ele vota carregando experiências, crenças, religião, memória familiar, situação financeira, identidade partidária, rejeição ao adversário e confiança — ou desconfiança — nas instituições.

Por isso duas pessoas podem observar o mesmo acontecimento e chegar a conclusões completamente diferentes.

Uma olha para a Lava Jato e enxerga corrupção.

Outra olha para as decisões posteriores do STF e enxerga perseguição política.

Uma vê determinado programa social como assistencialismo.

Outra vê proteção social.

Esse fenômeno é conhecido pela psicologia política como raciocínio motivado: tendemos a interpretar informações de maneira mais favorável às crenças que já possuímos.

E isso acontece tanto na esquerda quanto na direita.

O possível círculo da dependência

Depois de observar esses dados, considero legítimo levantar uma hipótese:

POBREZA → DEPENDÊNCIA ECONÔMICA → MAIOR PODER DO ESTADO → FORTALECIMENTO DE REDES POLÍTICAS → CONTINUIDADE NO PODER → PERMANÊNCIA DA DEPENDÊNCIA.

É uma hipótese, não uma verdade científica já demonstrada para todos os municípios.

Mas existem elementos suficientes para que ela seja investigada.

Municípios economicamente frágeis dependem mais das transferências públicas.

Onde a iniciativa privada é pequena, empregos públicos possuem peso proporcionalmente maior.

Onde existem poucas oportunidades, perder um contrato pode representar uma tragédia familiar.

Onde milhões dependem de políticas sociais, governos responsáveis por essas políticas naturalmente podem colher reconhecimento eleitoral.

Esses elementos, combinados, podem favorecer estruturas políticas duradouras.

A pergunta que precisamos fazer

Não deveríamos perguntar:

“Por que o pobre vota errado?”

Essa pergunta é preconceituosa e simplista.

A pergunta correta é muito mais incômoda:

Por que, depois de tantos anos de continuidade política, milhões de pessoas ainda vivem em condições econômicas que as tornam profundamente dependentes do Estado?

E existe outra:

O sucesso de um governo deve ser medido pelo número de pessoas que dependem dele ou pelo número de pessoas que conquistaram condições para caminhar com autonomia?

Assistência social é necessária.

Combate à fome é necessário.

Proteção aos vulneráveis é necessária.

Mas precisamos também de educação eficiente, segurança pública, ambiente favorável ao empreendedorismo, agricultura competitiva, indústria, comércio, qualificação profissional e emprego privado.

A Bahia precisa produzir oportunidades suficientes para que um cidadão possa olhar para qualquer prefeito, governador ou presidente e dizer:

“Meu voto é meu. Meu emprego não depende de você. Minha família não precisa votar no seu candidato para sobreviver.”

Esse deveria ser um dos maiores objetivos de qualquer democracia.

Porque liberdade política sem liberdade de consciência é incompleta.

E liberdade de consciência sem um mínimo de independência econômica pode se tornar extremamente frágil.

Democracia verdadeira não é apenas colocar uma urna diante do cidadão a cada dois ou quatro anos. É garantir que, diante daquela urna, ele possa escolher sem medo, sem ameaça, sem favor e sem sentir que deve sua sobrevivência a quem está no poder.


Fontes consultadas: Tribunal Superior Eleitoral (TSE); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/PNAD Contínua); Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan/IFGF); Fórum Brasileiro de Segurança Pública — Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025; Ministério Público Eleitoral/MPF-BA; dados oficiais do Governo da Bahia sobre Bolsa Família e mercado de trabalho; Supremo Tribunal Federal; estudos acadêmicos publicados na SciELO sobre Bolsa Família e comportamento eleitoral; e levantamentos eleitorais publicados após o primeiro turno de 2026.

Luciano Gomes
Teólogo, pastor e articulista

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